sábado, 7 de março de 2026

Uniforme como dispositivo de castração

    Desde meu primeiro dia de aula em 2012, quando eu tinha 5 anos, eu uso uniforme. Naquela época era interessante, principalmente por eu usar uma opção alternativa que era o short saia ─ mas a gente cresce, e a revolta chega. Lembro de um seriado chamado Andy Mack, que via quando criança, por volta de 2016 e 2017 quando já estava criando algum senso crítico sobre as coisas. Em um episódio em especial, uma direção nova chega na escola que a turma de Andy estudava, e garotas são impedidas de utilizarem algum tipo de vestimenta que não me lembro qual especificamente (10 anos já né). E foi algo que me impactou muito naquele momento, talvez nós brasileiros sejamos muito impactados por isso a infância e adolescência inteira. O modelo americano escolar é algo que mexe com nossa química cerebral, principalmente por termos nos acostumado com o padrão de uniforme que esteve presente desde a nossa pré infância. 

    Quando cheguei no ensino fundamental II, enfrentei esse problema mais de frente do que a maioria das pessoas. Por conta das alterações hormonais decorrentes de uma puberdade um pouco precoce, meu corpo teve problemas com os uniformes proporcionados pelas instituições que frequentei ─ desde esse momento minha relação uniforme-aluno foi hostil, mas foi escalando. Cheguei na pré adolescência e me vi encarando mais ainda o problema com os uniformes ─ além de não me caber enquanto individuo que lidava com problemas hormonais, também não me cabia como pessoa singular cheia de gostos e querer. Uma das minhas melhores alternativas naquela época, eram os casacos, tanto para esconder o odor desagradável quanto para suprir um pouco da angustia de querer ser um pouco mais do que eu podia ser naquele instante. As consequências naquele primeiro momento não foram poucos, e assim se estendeu até o final do meu ensino fundamental. 

    No ensino médio obviamente não seria diferente, apesar das regras de vestimenta serem um pouco mais favoráveis, ainda assim não chegavam a um nível de liberdade do meu agrado, mas poder ainda assim escolher qual tipo de camiseta utilizaria, me deixou muito feliz, não iria mais ter que sofrer bullying pelo mal cheiro deixado nas blusas de poliéster. Mas o que nos meus 15 anos pareceu suprir alguma lacuna, nos 16 e 17 não foi o mesmo, o senso foi crescendo, me encontrei na moda, mesmo que naquele momento menos do que atualmente, ainda assim me chateava. No calor de uma cidade litorânea brasileira, usar blusa fechada parecia e era um absurdo, tanto no curso técnico quanto na escola as pessoas passavam mal e lutavam diariamente com o calor de um dia inteiro. Nada de saias, mesmo que longas, nada de regatas, mesmo que sem decote e nada de bermudas, mesmo que sem rasgos. O uniforme se tornou dispositivo de opressão mesmo sem antes sequer saber do que se tratava isso. Uma obrigação, algo que me podava de ser quem sou. 

    Então, terminei a escola no ano de 2024, foi incrível sentir a liberdade de escolher o que poderia vestir, apesar de não ter frequentado nenhuma instituição de ensino durante meu ano de 2025, eu ainda pude explorar minha singularidade nas poucas vezes que deixei minha casa para ver a luz solar do nordeste, mas que durou pouco. Por conta do meu desempenho abaixo da nota de corte no curso escolhido para ingressar no ensino superior, tive que voltar aos estudos, mas dessa vez dentro de uma instituição, que me surpreendeu, no primeiro dia de aula ouvir que seria obrigatório o uso de farda escolar. O que pareceu um sonho, caiu por terra, não esperava encarar novamente essa dinâmica dentro de um cursinho pré vestibular. 

Uniformização do corpo

    Como eu disse anteriormente, nós brasileiros nos socializamos muito com a ideia do uniforme. Um ano atrás, aproximadamente, quando eu ainda utilizava tiktok, me apareceu um vídeo que discutia a uniformização além da obrigatoriedade. Nesse vídeo em questão, a pessoa que discorria a ideia compartilhou sua experiência de vida enquanto imigrante brasileira na Europa, como apesar nós, mesmo no tempo vago, utilizamos uniforme, além de uma infância inteira e adolescência, na vida adulta também, e como é algo tão socializado que se torna difícil encarar a possibilidade de pensar por si próprio a ideia de poder escolher o que vestir.
    Recentemente, uma amiga compartilhou como se sentia perdida pós ensino médio, e quem realmente era no quesito vestimenta, e algo que não me passou naquele momento, mas que me vem agora, é como, mesmo fora da escola, ainda seguimos um padrão estético do lugar que compartilhamos. Segundo Viela e Junger (2013), nos espaços de poder, como a instituição de ensino, o uniforme apaga os referentes singulares do corpo em proveito de uma lógica que favoreça o ordenamento disciplinar. Seria passível de questionamento, como essa dinâmica afeta o cotidiano do indivíduo após o término das atividades escolares, mas algo que deve ser exposto nessa discussão é como, na verdade, nada disso deve ser revertido, o uniforme é apenas uma fração das formas de opressão do ensino disciplinar.
"O uniforme escolar, ao encobrir a individualidade do estudante, o lança no universo do coletivo, do grupo. Seus gestos serão os grupos, os ditados pelo professor, pela escola. Essas estratégias que se materializam no interior da escola visam a tornar o indivíduo submisso à ordem vigente conforme os padrões reconhecidos pela sociedade como corretos." ─ Uniforme escolar e uniformização dos corpos
    A escola é o primeiro ambiente social que uma pessoa frequenta, se for concluída com excelência, não abrem lacunas do questionamento, caso contrario, se torna uma pessoa questionadora e um ser pensante. 

    Por fim, é de extrema importância entender que o uniforme não é um utensílio que surgiu do nada para nada. É apenas uma das formas de atuação do poder disciplinar que deve ser questionada sempre que possível. Vim aqui hoje compartilhar minha angustia com isso porque vai além de uma vestimenta, é como escolhi me expressar e como temo pelo apagamento disso novamente.

Referências:

VILELA, Teresinha Maria de Castro; JUNGER, Victor. Uniforme e Cultura Visual: Códigos Visuais do Escolar. In: VI Seminário Nacional de Pesquisa em Arte e Cultura Visual, 2013, Goiânia. Anais. Goiânia, UFG, FAV. 2013.

Almeida, W. R. A. (2017). Uniforme escolar e uniformização dos corpos. Revista Tempos E Espaços Em Educação10(22), 09–22. https://doi.org/10.20952/revtee.v10i22.6134

Um comentário:

  1. Acho interessante ver alguém falando sobre isso, principalmente pelo fato que você mesma cita no texto, a forma como nossa sociedade lida com os uniformes. É um tema muito importante! E que tem influência e impacto desde o início da vida social de uma pessoa. Você foi muito necessária!

    ResponderExcluir