domingo, 8 de março de 2026
A luta não pode parar
sábado, 7 de março de 2026
Uniforme como dispositivo de castração
Desde meu primeiro dia de aula em 2012, quando eu tinha 5 anos, eu uso uniforme. Naquela época era interessante, principalmente por eu usar uma opção alternativa que era o short saia ─ mas a gente cresce, e a revolta chega. Lembro de um seriado chamado Andy Mack, que via quando criança, por volta de 2016 e 2017 quando já estava criando algum senso crítico sobre as coisas. Em um episódio em especial, uma direção nova chega na escola que a turma de Andy estudava, e garotas são impedidas de utilizarem algum tipo de vestimenta que não me lembro qual especificamente (10 anos já né). E foi algo que me impactou muito naquele momento, talvez nós brasileiros sejamos muito impactados por isso a infância e adolescência inteira. O modelo americano escolar é algo que mexe com nossa química cerebral, principalmente por termos nos acostumado com o padrão de uniforme que esteve presente desde a nossa pré infância.
Quando cheguei no ensino fundamental II, enfrentei esse problema mais de frente do que a maioria das pessoas. Por conta das alterações hormonais decorrentes de uma puberdade um pouco precoce, meu corpo teve problemas com os uniformes proporcionados pelas instituições que frequentei ─ desde esse momento minha relação uniforme-aluno foi hostil, mas foi escalando. Cheguei na pré adolescência e me vi encarando mais ainda o problema com os uniformes ─ além de não me caber enquanto individuo que lidava com problemas hormonais, também não me cabia como pessoa singular cheia de gostos e querer. Uma das minhas melhores alternativas naquela época, eram os casacos, tanto para esconder o odor desagradável quanto para suprir um pouco da angustia de querer ser um pouco mais do que eu podia ser naquele instante. As consequências naquele primeiro momento não foram poucos, e assim se estendeu até o final do meu ensino fundamental.
No ensino médio obviamente não seria diferente, apesar das regras de vestimenta serem um pouco mais favoráveis, ainda assim não chegavam a um nível de liberdade do meu agrado, mas poder ainda assim escolher qual tipo de camiseta utilizaria, me deixou muito feliz, não iria mais ter que sofrer bullying pelo mal cheiro deixado nas blusas de poliéster. Mas o que nos meus 15 anos pareceu suprir alguma lacuna, nos 16 e 17 não foi o mesmo, o senso foi crescendo, me encontrei na moda, mesmo que naquele momento menos do que atualmente, ainda assim me chateava. No calor de uma cidade litorânea brasileira, usar blusa fechada parecia e era um absurdo, tanto no curso técnico quanto na escola as pessoas passavam mal e lutavam diariamente com o calor de um dia inteiro. Nada de saias, mesmo que longas, nada de regatas, mesmo que sem decote e nada de bermudas, mesmo que sem rasgos. O uniforme se tornou dispositivo de opressão mesmo sem antes sequer saber do que se tratava isso. Uma obrigação, algo que me podava de ser quem sou.
Então, terminei a escola no ano de 2024, foi incrível sentir a liberdade de escolher o que poderia vestir, apesar de não ter frequentado nenhuma instituição de ensino durante meu ano de 2025, eu ainda pude explorar minha singularidade nas poucas vezes que deixei minha casa para ver a luz solar do nordeste, mas que durou pouco. Por conta do meu desempenho abaixo da nota de corte no curso escolhido para ingressar no ensino superior, tive que voltar aos estudos, mas dessa vez dentro de uma instituição, que me surpreendeu, no primeiro dia de aula ouvir que seria obrigatório o uso de farda escolar. O que pareceu um sonho, caiu por terra, não esperava encarar novamente essa dinâmica dentro de um cursinho pré vestibular.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
Humildade brasileira e a síndrome do soberbo hipotético
O Brasil é um país que nasceu da escravidão, a única humildade contida nas raízes que descendemos, é a dos povos indígenas que aqui habitavam antes de serem massacrados pelos portugueses e podados por essa cultura católica colonizadora. E humildade nem deve ser a palavra certa para definir o que quero dizer aqui hoje, talvez a palavra que quero utilizar ao tratar dos povos indígenas seja "empatia", não com o ser humano, e sim com tudo que tem vida. Pois o conceito de humildade cravejado no nosso social brasileiro é algo totalmente deturpado do que um dia foi essa palavra. Humildade: É a virtude de reconhecer as próprias limitações, erros e fraquezas, agindo com modéstia, simplicidade e sem vaidade ou soberba.
O modo operante capitalista brasileiro pós era Vargas definiu como enxergaríamos as pessoas. Vender o Brasil como um país livre de racismo e uma democracia racial hipotética afetou gravemente como nos relacionaríamos com a humildade. O rico branco se dizia igual ao preto pobre, livre do racismo e sendo totalmente humilde gente como a gente, buscando sempre a castração dos corpos dominados.
O chefe da empresa te chama de família mas não pensa duas vezes antes de te demitir, a patroa te chama de família mas você ainda dorme no quartinho dos fundos e tem câmera na cozinha para ver se não roubaste nada. E assim criamos a humildade, zero soberba, o não reconhecimento dos próprios talentos mesmo que exista.
Recentemente, viralizou um vídeo do Cesár Tralli, atual apresentador do Jornal Nacional, comendo marmita. E na internet, nas páginas de fofoca, a frase "Gente como a gente" era marca registrada na legenda desse vídeo. Uma competição eterna para ver quem é mais humilde, e isso não seria algo ruim se pelo menos fosse verdade. Após parar a gravação eles voltam para o expediente, para suas mesas caras, vestindo seus ternos milionários, ganhando seus salários gordos e olhando ahora nos seus relógios também caros. Enquanto você, fica comprando a ideia de humildade, de pessoa popular, e acredita que ele é como você, mas não é, nunca será.
O brasileiro tem uma autoestima horrorosa, lógico, herança da escravidão, nada pode ser reconhecido por nós mesmos. Não pode existir auto reconhecimento em nenhum âmbito da vida, desde financeira, desde física ou acadêmica. O rico não faz isso, mas por motivos ideológicos, diferente de nós que NÃO PODEMOS ter tal reconhecimento, tudo deve ser escondido, o salário não pode ser falado, a aparência não pode ser elogiada e a inteligência pior ainda. Num país onde quase ninguém tem acesso ao ensino superior, se gabar por ter é pura soberba no imaginário popular.
Isso tudo acabada por moldar como lidámos com nossas relações sociais, a revolta diante dos salários ridículos que ganhamos, e o julgamento do que é uma pessoa soberba ou não, que normalmente é muito equivocado. Esse conceito de família totalmente atrelado do que é ser humilde é somente uma forma de conseguirem sugar cada vez mais nossa força de trabalho.
sexta-feira, 19 de dezembro de 2025
Nunca houve um natal tão triste como o de agora
Ontem me apareceu um tweet que propunha um pensamento: Ninguém está mais no espírito natalino. Mas por que? Além do fato que Natal e Ano novo se tornaram pretexto para consumo, coisa que já falei aqui uns meses antes, algo além disso vem tomando cada vez mais o significado dessa data que, por muito tempo, foi tão especial para nós.
No livro A sociedade do cansaço, o autor coreano Byung Chul Han levanta vários temas, mas um em especial; o sentido atual da vida. "A economia capitalista absolutiza a sobrevivência. Ela nutre da ilusão de que mais capital gera mais vida, que gera mais capacidade para viver" ele diz. Trabalhamos para viver na mesma medida em que vivemos para trabalhar, o trabalho pela vida perdeu totalmente o significado visto que não existe mais vida, apenas a sobrevivência, apenas a espera de um amanhã que não terá nada de diferente além de mais trabalho, talvez, já que o trabalho em excesso também nos mata, "estão por demais vivos para morrer, e por demais mortos para viver.".
Ele também cita esse temas que abordamos hoje; festividades. Ele diz: "A festa é o evento, o lugar onde estamos inclusive nós próprios nos tornamos divinos. [...] Se vivemos numa época sem festa, se numa época desprovida de celebrações, já não temos mais qualquer relação com o divino". O Natal, apesar de uma data religiosa, é um grande evento, pessoas voltando para sua cidade natal, famílias reunidas apenas para aquilo, a festividade, o calor humano que nos abraça, tempo de descanso para uma população inteira que trabalha no mínimo 44h semanais, mas que até isso está sendo tirado de nós. O senso de produtividade da população está cada vez mais adentrando o modo de vida das pessoas, o que era um descanso virou uma pausa ─ as vezes nem isso ─ para produzir mais, ou as vezes nem a pausa de fato tem, como Byung chul han diz, vivemos na sociedade da positividade, não existe mais a separação indivíduo e trabalho, hoje, o indivíduo é o trabalho.
"Talvez devêssemos reconquistar aquela divindade, aquela festividade divina, em vez de continuarmos sendo escravos do trabalho e do desempenho. Deveríamos reconhecer que hoje perdemos aquela festividade, aquele tempo de celebração na medida em que absolutizamos trabalho desempenho e produção."
O fim espirito natalino é apenas mais uma vítima da sociedade da positividade. Grande parte da população, infelizmente, trabalha até o dia 23 de dezembro ou metade do dia 24, entretanto, a aceleração que é produzir está cada vez maior ao ponto de não haver tempo para a chegada do espírito que vem todos os anos. "O tempo de trabalho que hoje está se universalizando destrói aquela época celebrativa como tempo de festa.".
quarta-feira, 19 de novembro de 2025
A ausência de espaços exclusivos para mulheres
Começar esse texto é meio difícil pois não tenho muito onde me apoiar nem me embasar. O pensamento surgiu quando um amigo hetero cis me disse de onde vieram suas amizades, que grande parte eram dos ambientes que frequentava, como trabalho e faculdade, mas outro além desse, o futebol. Esporte que está além do que se apresenta ser, é algo inerente na cultura brasileira, e mais presente ainda no cotidiano masculino, não somente como um esporte mas um meio de socialização de indivíduos. O futebol é o ambiente dos homens para os homens, apesar da história de ser um esporte masculino ter ficado no passado, continua permanecendo como o maior meio social do sexo masculino. Então surge a duvida, e qual seria o feminino?
Sugerir outro esporte como vôlei seria equivalente a dizer que tem homens que não gostam de futebol, são poucos, assim como o público feminino que gosta de praticar atividades físicas além de academia, ioga e pilates. Longe de mim ousar dizer que esses 3 citados não são ambientes se socialização, esses 2 últimos sendo predominantemente feminino. Mas eu busco algo além disso, algo que defina meu gênero. Somos bombardeados cotidianamente com ideologias de gênero mas nunca se estabeleceu um lugar feminino além dos salões de beleza e lojas de roupa? O gênero feminino se resume ao consumo?
Recentemente, na internet surgiu uma onda de discursos de empoderamento feminino, puxo até um pouco sobre dois temas que já falei aqui no blog, aquela matéria da VOGUE sobre como ter um namorado é vergonhoso e o texto sobre Capital cultural. Nesses dois casos vemos duas tendências, ambas que se associam diretamente com o que trago aqui hoje.
Nessa onda de incentivo ao capital cultural, algo que reparei em dois vídeos que explicavam rasamente sobre o tema, era citando a criação de clubes do livro de marcas famosas, curiosamente surgindo quase que acompanhado da matéria da vogue sobre como ter um namorado é vergonhoso. Surge então esse olhar sobre as mulheres de que, do nada, precisamos ser algo, novamente, não me entendam mal, a busca por conhecimento sempre será algo que eu incentivo e aprovo, o que me revolta talvez é como essas coisas são momentâneas, por que sendo sincera, não acompanho esses posts no substack sobre "Tutorial de como se tornar interessante", já faz uns 2 meses, não sei se a trend do momento ainda é essa, pois as coisas escalam num nível tão rápido que não poderia mais afirmar da veracidade dos fatos agora aqui apresentados. Mas meu ponto quando engajo nesse assunto para falar do tema de hoje é: Os fazeres femininos, além do cuidados, são tão sucateados que hoje mulheres não ocupam lugar algum.
Sabe aquela frase popular que homens são eternos garotos? De modo contrário, nós mulheres crescemos rápidos e nada se torna nosso além daquilo que nos foi designado no momento em que viram na ultassom qual seria nosso sexo, o feminino, a marca da besta. "Coisa de mulher" é algo vergonhoso e degradante até pró próprio indivíduo mulher, aprendemos desde cedo odiar tudo o que nos é direcionado, enquanto os homens, abraçam, o futebol está ai para provar, na fundamental I os meninos cortavam moecano igual do Neymar, enquanto as meninas negavam a cor rosa, não era mais legal ser menina, quem usava rosa agora era burra e fútil. E então crescemos assim, com vergonha do que somos, resumem ser mulher a futilidade, as vezes é sim, mas na verdade o que eu quero dizer quando falo isso é o que de fato é futilidade, termo direcionado a nós por coisas que eles mesmo fazem. Adorar ídolos é somente idiota e fútil quando é feito por nós, então, se ser mulher é isso, eu aceito esse fardo, não posso mudar a visão masculina do que deveria ser considerado relevante para compor um ser humano tão profundo como os possuidores do falo. Será que essa onda de busca por conhecimento não está apenas ligada a o que os homens consideram ser útil ou não?
Mulheres jamais terão local quando nós jamais aceitaremos quem somos, se tudo o que nos é direcionado é de cunho ofensivo, então jamais vamos adotar algo para nós. Infelizmente, a grande parte de nós, até eu talvez, está inserida cegamente na lógica machista do que compõe nosso gênero. Se tudo o que é nosso é denegrido então nenhuma de nós vai querer ser aquilo. Mulheres julgam umas as outras por estereótipos feitos por homens que logo em seguida voltam para nossos próprios seres por que o intuito jamais foi nos acolher, somente nos dividir. Não temos local por que odiamos quem somos, ser mulher e fazer coisa de mulher é eternamente vergonhoso.
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