Hoje, depois de muito tempo adiando, consegui ler A vida não é útil do Ailton Krenak . E não posso sequer dizer "para além da ideia central do livro", porque o tema que vou abordar agora talvez seja a ideia principal do livro, que é a religião.
Como me foi apresentado, tanto no citado anterior, quanto em Ideias para adiar o fim do mundo, a cosmovisão dos povos originários é para além de uma doutrinação socialmente convencional das sociedades colonizadas. Decerto que ainda assim passaram por doutrinações durante o período colonizador, e que as visões que têm hoje não são as mesmas dos povos de 500 anos atrás — tanto que é por isso que vemos indígenas difundindo discurso homofóbico. Mas o que eu quero dizer hoje, talvez de forma presunçosa, é que o estranhamento e o preconceito de pessoas católicas e evangélicas diz respeito a cosmovisão indígena, é puramente por eles acreditarem no que vivem.
O povo Krenak tem profunda ligação com o Rio Doce, que eles chamam de Watu, e talvez o absurdo que isso pareça para quem não é indígena, é o mesmo absurdo que a existência de Deus parece para mim, mas eu sou ateia, não tenho problema com meu próprio pensamento. O cristianismo foi tão bem difundido na nossa sociedade que as pessoas acreditam sem questionar, assim como o capitalismo. E essa falta de crença no que dizem ser a religião certa, acarreta, naturalmente, em desacreditar em tudo que não é palpável. Sim, as mesmas pessoas que dizem "Você vê o ar?", quando você diz não acreditar em Deus porque não o vê, são as mesmas que duvidarão quando você disser que Deus te falou em um sonho, e esse exemplo está dentro do âmbito da própria religião porque se eu desse o mesmo exemplo do Watu seria tranquilamente possível retrucar com a ideia do preconceito.
Acredito que o cristianismo esteja fazendo um belíssimo papel em nosso sistema capitalista, como Marx disse: A religião é o ópio do povo. E nada poderia ser mais satisfatório do que as pessoas acreditaram cegamente nisso porque se for questionado é blasfêmia, muito conveniente inclusive.
Na minha visão, portanto, a percepção de que povos indígenas ao dizerem que são parentes de um rio é falácia, vai além de um simples preconceito contra a cosmovisão dessas pessoas, diz respeito muito a crença de quem prega o discurso. Segue uma linha de pensamento mais o menos como quem quis dizer: "Se eu não consigo crer, com convicção, no que eu prego ser a religião superior a todas, provavelmente você também mente ao dizer que o Rio doce é seu avô".
(1).jpg)
