sexta-feira, 3 de abril de 2026

Tem tanta coisa acontecendo

     Esse ano começou de um jeito muito atípico, talvez por isso não tenha dado tanta atenção ao meu blog. Mas hoje venho aqui contar algumas novidades talvez que ocorreram em minha vida.

    Em janeiro, passei minhas férias na minha querida cidade Santos, foi incrível. Quando voltei, ingressei num curso de costura e num curso pré vestibular, é muito legal conhecer pessoas novas apesar de nenhuma ter me despertado um grande sentimento de amizade. Recentemente, terminei, depois de muitos meses, "Vigiar e Punir" de Michel Foucault, e recentemente, também, comecei "Água viva" de Clarice Lispector, mas logo termino por ser uma obra curta.

    Não sei quais sentimentos por dentro de meu peito porque agora, depois de um ano, me vejo ocupada novamente, não existem mais lacunas em minha rotina para pensar sobre as questões que gostava tanto de aqui abordar, quis manter, ao menos, o habito da leitura que capturei pela primeira vez em minha vida.


domingo, 8 de março de 2026

A luta não pode parar

Feliz dia das mulheres para as leitoras do Tete's Mind.
Desejo que nunca deixem de lutar pelos nossos direitos, queria abordar pautas feministas mais vezes aqui no blog e vou continuar tentando.
Deixo aqui essa mensagem que veio numa blusa que comprei num brecho em janeiro. 

sábado, 7 de março de 2026

Uniforme como dispositivo de castração

    Desde meu primeiro dia de aula em 2012, quando eu tinha 5 anos, eu uso uniforme. Naquela época era interessante, principalmente por eu usar uma opção alternativa que era o short saia ─ mas a gente cresce, e a revolta chega. Lembro de um seriado chamado Andy Mack, que via quando criança, por volta de 2016 e 2017 quando já estava criando algum senso crítico sobre as coisas. Em um episódio em especial, uma direção nova chega na escola que a turma de Andy estudava, e garotas são impedidas de utilizarem algum tipo de vestimenta que não me lembro qual especificamente (10 anos já né). E foi algo que me impactou muito naquele momento, talvez nós brasileiros sejamos muito impactados por isso a infância e adolescência inteira. O modelo americano escolar é algo que mexe com nossa química cerebral, principalmente por termos nos acostumado com o padrão de uniforme que esteve presente desde a nossa pré infância. 

    Quando cheguei no ensino fundamental II, enfrentei esse problema mais de frente do que a maioria das pessoas. Por conta das alterações hormonais decorrentes de uma puberdade um pouco precoce, meu corpo teve problemas com os uniformes proporcionados pelas instituições que frequentei ─ desde esse momento minha relação uniforme-aluno foi hostil, mas foi escalando. Cheguei na pré adolescência e me vi encarando mais ainda o problema com os uniformes ─ além de não me caber enquanto individuo que lidava com problemas hormonais, também não me cabia como pessoa singular cheia de gostos e querer. Uma das minhas melhores alternativas naquela época, eram os casacos, tanto para esconder o odor desagradável quanto para suprir um pouco da angustia de querer ser um pouco mais do que eu podia ser naquele instante. As consequências naquele primeiro momento não foram poucos, e assim se estendeu até o final do meu ensino fundamental. 

    No ensino médio obviamente não seria diferente, apesar das regras de vestimenta serem um pouco mais favoráveis, ainda assim não chegavam a um nível de liberdade do meu agrado, mas poder ainda assim escolher qual tipo de camiseta utilizaria, me deixou muito feliz, não iria mais ter que sofrer bullying pelo mal cheiro deixado nas blusas de poliéster. Mas o que nos meus 15 anos pareceu suprir alguma lacuna, nos 16 e 17 não foi o mesmo, o senso foi crescendo, me encontrei na moda, mesmo que naquele momento menos do que atualmente, ainda assim me chateava. No calor de uma cidade litorânea brasileira, usar blusa fechada parecia e era um absurdo, tanto no curso técnico quanto na escola as pessoas passavam mal e lutavam diariamente com o calor de um dia inteiro. Nada de saias, mesmo que longas, nada de regatas, mesmo que sem decote e nada de bermudas, mesmo que sem rasgos. O uniforme se tornou dispositivo de opressão mesmo sem antes sequer saber do que se tratava isso. Uma obrigação, algo que me podava de ser quem sou. 

    Então, terminei a escola no ano de 2024, foi incrível sentir a liberdade de escolher o que poderia vestir, apesar de não ter frequentado nenhuma instituição de ensino durante meu ano de 2025, eu ainda pude explorar minha singularidade nas poucas vezes que deixei minha casa para ver a luz solar do nordeste, mas que durou pouco. Por conta do meu desempenho abaixo da nota de corte no curso escolhido para ingressar no ensino superior, tive que voltar aos estudos, mas dessa vez dentro de uma instituição, que me surpreendeu, no primeiro dia de aula ouvir que seria obrigatório o uso de farda escolar. O que pareceu um sonho, caiu por terra, não esperava encarar novamente essa dinâmica dentro de um cursinho pré vestibular. 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Humildade brasileira e a síndrome do soberbo hipotético

    O Brasil é um país que nasceu da escravidão, a única humildade contida nas raízes que descendemos, é a dos povos indígenas que aqui habitavam antes de serem massacrados pelos portugueses e podados por essa cultura católica colonizadora. E humildade nem deve ser a palavra certa para definir o que quero dizer aqui hoje, talvez a palavra que quero utilizar ao tratar dos povos indígenas seja "empatia", não com o ser humano, e sim com tudo que tem vida. Pois o conceito de humildade cravejado no nosso social brasileiro é algo totalmente deturpado do que um dia foi essa palavra. Humildade: É a virtude de reconhecer as próprias limitações, erros e fraquezas, agindo com modéstia, simplicidade e sem vaidade ou soberba.

O modo operante capitalista brasileiro pós era Vargas definiu como enxergaríamos as pessoas. Vender o Brasil como um país livre de racismo e uma democracia racial hipotética afetou gravemente como nos relacionaríamos com a humildade. O rico branco se dizia igual ao preto pobre, livre do racismo e sendo totalmente humilde gente como a gente, buscando sempre a castração dos corpos dominados. 

O chefe da empresa te chama de família mas não pensa duas vezes antes de te demitir, a patroa te chama de família mas você ainda dorme no quartinho dos fundos e tem câmera na cozinha para ver se não roubaste nada. E assim criamos a humildade, zero soberba, o não reconhecimento dos próprios talentos mesmo que exista. 

    Recentemente, viralizou um vídeo do Cesár Tralli, atual apresentador do Jornal Nacional, comendo marmita. E na internet, nas páginas de fofoca, a frase "Gente como a gente" era marca registrada na legenda desse vídeo. Uma competição eterna para ver quem é mais humilde, e isso não seria algo ruim se pelo menos fosse verdade. Após parar a gravação eles voltam para o expediente, para suas mesas caras, vestindo seus ternos milionários, ganhando seus salários gordos e olhando a
hora nos seus relógios também caros. Enquanto você, fica comprando a ideia de humildade, de pessoa popular, e acredita que ele é como você, mas não é, nunca será.

    O brasileiro tem uma autoestima horrorosa, lógico, herança da escravidão, nada pode ser reconhecido por nós mesmos. Não pode existir auto reconhecimento em nenhum âmbito da vida, desde financeira, desde física ou acadêmica. O rico não faz isso, mas por motivos ideológicos, diferente de nós que NÃO PODEMOS ter tal reconhecimento, tudo deve ser escondido, o salário não pode ser falado, a aparência não pode ser elogiada e a inteligência pior ainda. Num país onde quase ninguém tem acesso ao ensino superior, se gabar por ter é pura soberba no imaginário popular.

    Isso tudo acabada por moldar como lidámos com nossas relações sociais, a revolta diante dos salários ridículos que ganhamos, e o julgamento do que é uma pessoa soberba ou não, que normalmente é muito equivocado. Esse conceito de família totalmente atrelado do que é ser humilde é somente uma forma de conseguirem sugar cada vez mais nossa força de trabalho.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Nunca houve um natal tão triste como o de agora

     Ontem me apareceu um tweet que propunha um pensamento: Ninguém está mais no espírito natalino. Mas por que? Além do fato que Natal e Ano novo se tornaram pretexto para consumo, coisa que já falei aqui uns meses antes, algo além disso vem tomando cada vez mais o significado dessa data que, por muito tempo, foi tão especial para nós. 

    No livro A sociedade do cansaço, o autor coreano Byung Chul Han levanta vários temas, mas um em especial; o sentido atual da vida. "A economia capitalista absolutiza a sobrevivência. Ela nutre da ilusão de que mais capital gera mais vida, que gera mais capacidade para viver" ele diz. Trabalhamos para viver na mesma medida em que vivemos para trabalhar, o trabalho pela vida perdeu totalmente o significado visto que não existe mais vida, apenas a sobrevivência, apenas a espera de um amanhã que não terá nada de diferente além de mais trabalho, talvez, já que o trabalho em excesso também nos mata, "estão por demais vivos para morrer, e por demais mortos para viver.".

    Ele também cita esse temas que abordamos hoje; festividades. Ele diz: "A festa é o evento, o lugar onde estamos inclusive nós próprios nos tornamos divinos. [...] Se vivemos numa época sem festa, se numa época desprovida de celebrações, já não temos mais qualquer relação com o divino". O Natal, apesar de uma data religiosa, é um grande evento, pessoas voltando para sua cidade natal, famílias reunidas apenas para  aquilo, a festividade, o calor humano que nos abraça, tempo de descanso para uma população inteira que trabalha no mínimo 44h semanais, mas que até isso está sendo tirado de nós. O senso de produtividade da população está cada vez mais adentrando o modo de vida das pessoas, o que era um descanso virou uma pausa ─ as vezes nem isso ─ para produzir mais, ou as vezes nem a pausa de fato tem, como Byung chul han diz, vivemos na sociedade da positividade, não existe mais a separação indivíduo e trabalho, hoje, o indivíduo é o trabalho. 

"Talvez devêssemos reconquistar aquela divindade, aquela festividade divina, em vez de continuarmos sendo escravos do trabalho e do desempenho. Deveríamos reconhecer que hoje perdemos aquela festividade, aquele tempo de celebração na medida em que absolutizamos trabalho desempenho e produção."

    O fim espirito natalino é apenas mais uma vítima da sociedade da positividade. Grande parte da população, infelizmente, trabalha até o dia 23 de dezembro ou metade do dia 24, entretanto, a aceleração que é produzir está cada vez maior ao ponto de não haver tempo para a chegada do espírito que vem todos os anos. "O tempo de trabalho que hoje está se universalizando destrói aquela época celebrativa como tempo de festa.".