sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Nunca houve um natal tão triste como o de agora

     Ontem me apareceu um tweet que propunha um pensamento: Ninguém está mais no espírito natalino. Mas por que? Além do fato que Natal e Ano novo se tornaram pretexto para consumo, coisa que já falei aqui uns meses antes, algo além disso vem tomando cada vez mais o significado dessa data que, por muito tempo, foi tão especial para nós. 

    No livro A sociedade do cansaço, o autor coreano Byung Chul Han levanta vários temas, mas um em especial; o sentido atual da vida. "A economia capitalista absolutiza a sobrevivência. Ela nutre da ilusão de que mais capital gera mais vida, que gera mais capacidade para viver" ele diz. Trabalhamos para viver na mesma medida em que vivemos para trabalhar, o trabalho pela vida perdeu totalmente o significado visto que não existe mais vida, apenas a sobrevivência, apenas a espera de um amanhã que não terá nada de diferente além de mais trabalho, talvez, já que o trabalho em excesso também nos mata, "estão por demais vivos para morrer, e por demais mortos para viver.".

    Ele também cita esse temas que abordamos hoje; festividades. Ele diz: "A festa é o evento, o lugar onde estamos inclusive nós próprios nos tornamos divinos. [...] Se vivemos numa época sem festa, se numa época desprovida de celebrações, já não temos mais qualquer relação com o divino". O Natal, apesar de uma data religiosa, é um grande evento, pessoas voltando para sua cidade natal, famílias reunidas apenas para  aquilo, a festividade, o calor humano que nos abraça, tempo de descanso para uma população inteira que trabalha no mínimo 44h semanais, mas que até isso está sendo tirado de nós. O senso de produtividade da população está cada vez mais adentrando o modo de vida das pessoas, o que era um descanso virou uma pausa ─ as vezes nem isso ─ para produzir mais, ou as vezes nem a pausa de fato tem, como Byung chul han diz, vivemos na sociedade da positividade, não existe mais a separação indivíduo e trabalho, hoje, o indivíduo é o trabalho. 

"Talvez devêssemos reconquistar aquela divindade, aquela festividade divina, em vez de continuarmos sendo escravos do trabalho e do desempenho. Deveríamos reconhecer que hoje perdemos aquela festividade, aquele tempo de celebração na medida em que absolutizamos trabalho desempenho e produção."

    O fim espirito natalino é apenas mais uma vítima da sociedade da positividade. Grande parte da população, infelizmente, trabalha até o dia 23 de dezembro ou metade do dia 24, entretanto, a aceleração que é produzir está cada vez maior ao ponto de não haver tempo para a chegada do espírito que vem todos os anos. "O tempo de trabalho que hoje está se universalizando destrói aquela época celebrativa como tempo de festa.".

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