Recentemente, revi a mini série de 12 episódios, Fleabag. E no episódio 4 da segunda temporada, a nossa protagonista diz algo, que aos 15 anos não ressoou de forma sociológica na minha cabeça, mas aos 18, com um pouco mais de estudo, pude concluir como isso atuava na vida das pessoas. O diálogo é o seguinte:
“ Eu quero alguém que me diga o que vestir de manhã. Não, eu quero alguém que me diga o que vestir todas as manhãs. Eu quero alguém que me diga o que comer. O que gostar. O que odiar. O que me enfurecer. O que ouvir. Que banda gostar. Para que comprar ingressos. Sobre o que fazer piada. Sobre o que não fazer piada. Eu quero alguém que me diga em que acreditar. Em quem votar e quem amar e como... dizer a eles. Eu só acho que quero alguém que me diga como viver minha vida, Padre, porque até agora, acho que tenho entendido errado. E eu sei que é por isso que as pessoas querem alguém como você em suas vidas, porque você simplesmente diz a elas como fazer. Você apenas diz a elas o que fazer e o que elas vão tirar do final, mesmo que eu não acredite em suas besteiras e eu saiba que cientificamente nada que eu faça faz qualquer diferença no final, de qualquer forma, eu ainda estou com medo. Por que eu ainda estou com medo? Então apenas me diga o que fazer. Apenas me diga o que fazer, Padre. "
Fleabag, na cena em questão se confessa para o padre, que não mantinha nenhuma relação religiosa com a mesma (não mesmo haha), mas essa cena, e o fato dela dizer isso tudo para o padre é o que me faz identificar, não só aos 15 anos mas aos 18 também, mas de uma forma muito mais profunda e cheia de sentimentos.
Senhorita Bira, em um de seus vídeos fala sobre como a religião atua de forma política na nossa sociedade, como a direita utiliza dela como artificio para manipular o rumo da sociedade. Porém, falando disso ainda, mas tentando enxergar de uma forma mais ampliada, como isso afeta a vida de quem NÃO é religioso, ou é ateu como nossa protagonista.
A uns dias atrás, fiz um breve desabafo para os meus amigos como não ser religiosa me afligia, e aflige até o momento, e acredito que seja por isso que as pessoas, além do materialismo, se apegam tanto na religião. Quando Fleabag diz "E eu sei que é por isso que as pessoas querem alguém como você em suas vidas, porque você simplesmente diz a elas como fazer.", ela fala não só sobre o Padre, mas Pastores também, eles são representantes da força divina, não é atoa que muito pastor utiliza disso para extorquir os fieis, entretanto, além disso, eles também são quem auxilia as pessoas, os perdidos, quem não tem mais ninguém a recorrer além da fé, "Deus me ajudou", não foi Deus, foi alguém, seu Padre, seu Pastor, até mesmo os irmãos da igreja, que aos dizerem o que Deus espera de você, te da um caminho, uma luz e uma esperança para sua vida desolada. Quando uma moça da minha antiga igreja, que estava afastada descobriu câncer de mama, algo que eu e minha mãe discutimos é como as pessoas quando passam por dificuldades, agarram a fé novamente, mas claro, elas precisam de algo além do material, precisam uma esperança além da realidade.
Mas e quando eu, que não sou religiosa, nunca exerci minha fé porque nunca acreditei nela nem quando tentaram me doutrinar durante 10 anos da minha vida, preciso de algo, a quem eu devo recorrer? Esse é o ponto do texto, esse é o ponto dessa cena. Encarar a realidade da forma crua, quase que existencialista é o que afeta muito de nós que não praticamos da religião, buscar algo que não seja sobrenatural deve ser a parte mais difícil disso tudo, saber que seu futuro depende exclusivamente das suas decisões, ter que acordar todo dia e ser responsável sobre si, é o que causa tormento.
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